{"id":766,"date":"2020-03-26T00:47:16","date_gmt":"2020-03-26T03:47:16","guid":{"rendered":"http:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/?p=766"},"modified":"2020-03-26T00:49:32","modified_gmt":"2020-03-26T03:49:32","slug":"artigo-como-posso-aprender-a-ser-eu-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/2020\/03\/26\/artigo-como-posso-aprender-a-ser-eu-mesmo\/","title":{"rendered":"Artigo: COMO POSSO APRENDER A SER \u201cEU MESMO\u201d"},"content":{"rendered":"<h1><strong>COMO POSSO APRENDER A SER \u201cEU MESMO\u201d<\/strong>*<\/h1>\n<h2><strong>(O caminho do crescimento espiritual)<\/strong><\/h2>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Enzo Brena<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Texto original em italiano em: <em>Testimoni<\/em>, 29\/02\/04, p. 9-11<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dentro de cada pessoa esconde-se um pecado de que muitas vezes ela n\u00e3o se d\u00e1 conta. \u00c9 que n\u00e3o sabe crescer no ritmo dos pr\u00f3prios anos. Assim ela corre o perigo de permanecer sempre imatura, descurando o projeto de Deus para a vida de cada mulher e cada homem. Pode ent\u00e3o viver correndo atr\u00e1s de uma autoimagem idealizada \u2013 e por isso mesmo falsa \u2013 negando o que na verdade \u00e9.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Quando se fala de pecado em geral, quase sempre se faz refer\u00eancia \u00e0 transgress\u00e3o de um mandamento. Mas esta \u00e9 uma forma muito reducionista de ver as coisas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Os psic\u00f3logos dizem que dentro de cada um de n\u00f3s h\u00e1 outros pecados, escondidos, dos quais nem temos consci\u00eancia. Um desses pecados consiste em negligenciar o pr\u00f3prio crescimento e a meta da vida, tal como o Criador determinou e como se acha inscrito nas leis da natureza. Temos aqui o pecado de permanecer imaturo (imatura), de n\u00e3o crescer no ritmo dos nosso pr\u00f3prios anos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Abordando essa quest\u00e3o, Estanislau Glaz, Jesu\u00edta, professor de Psicologia no <em>Ignatianum<\/em> de Crac\u00f3via (Pol\u00f4nia), escreve o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cSe queremos crescer, temos de nos manter sempre em contato com n\u00f3s mesmos e com Deus. A falta de desenvolvimento pessoal leva a constri\u00e7\u00f5es internas, que t\u00eam como resultado fazermos mal a n\u00f3s mesmos e aos outros.\u00b9\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Muitos cl\u00e9rigos, psic\u00f3logos e te\u00f3logos costumam perguntar: O que se pode fazer para favorecer o crescimento espiritual e, por conseguinte, promover o crescimento da pr\u00f3pria personalidade? Quais seriam as condi\u00e7\u00f5es essenciais para um desenvolvimento ou crescimento apropriado? Diversos psic\u00f3logos e te\u00f3logos tentaram responder a essas perguntas, mas em geral se limitaram a p\u00f4r \u00eanfase sobre os aspectos asc\u00e9ticos e teol\u00f3gicos. Mas, hoje, a psicologia da espiritualidade faz entrar em jogo um n\u00famero maior de fatores do que o fazia anteriormente a teologia.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Reconciliar-se consigo mesmo e com os outros<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Muitos psic\u00f3logos, observa Estanislau Glaz, pensam que um indiv\u00edduo, se pretende ser capaz de amar o pr\u00f3prio inimigo, deve primeiro aprender a amar o inimigo que habita dentro dele mesmo. Ou seja, deve proceder a uma reconcilia\u00e7\u00e3o entre os elementos hostis que moram dentro dele: tend\u00eancias agressivas, inclina\u00e7\u00f5es para o ci\u00fame, fobias, tristeza, sentimento de solid\u00e3o, emo\u00e7\u00f5es diversas&#8230; Devemos permitir que o sol do amor e da benevol\u00eancia de Deus brilhe sobre n\u00f3s e dentro de n\u00f3s, inclusive sobre todas as coisas escuras e amea\u00e7adoras, estranhas e embara\u00e7osas. A luz do amor, ent\u00e3o, transformar\u00e1 o mal.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O sentimento de culpa se deve, na maioria das vezes, \u00e0 falta de reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesmo, ao fato de n\u00e3o se conhecer a verdade sobre si mesmo. Dizem os psic\u00f3logos que ele \u00e9 geralmente necess\u00e1rio, visto nos oferecer a oportunidade de conhecer a verdade sobre n\u00f3s mesmos. Torna-se ent\u00e3o uma b\u00ean\u00e7\u00e3o. Mas pode tamb\u00e9m ser uma verdadeira maldi\u00e7\u00e3o. Aqueles que t\u00eam uma atitude negativa para com o pr\u00f3prio sentimento de culpa s\u00e3o incapazes de aceitar a hist\u00f3ria da pr\u00f3pria vida. Revoltam-se contra o fato de terem crescido deste ou daquele jeito, de terem nascido neste ou naquele momento da hist\u00f3ria, de n\u00e3o terem conseguido realizar os pr\u00f3prios sonhos, de terem sofrido ferimentos muito fundos. Censuram os pais ou a sociedade por n\u00e3o lhes terem dado a chance de um desenvolvimento normal. Sentem-se v\u00edtimas, e n\u00e3o aceitam sua situa\u00e7\u00e3o, suas feridas, seu limitado c\u00edrculo de experi\u00eancia. Mas essas pessoas deveriam compreender que seus pais e o pr\u00f3ximo n\u00e3o criaram esses limites (percebidos erroneamente como coer\u00e7\u00f5es) de prop\u00f3sito, mas s\u00f3 como resultado da experi\u00eancia de limites an\u00e1logos em sua vida.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>A reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesmo \u2013 frisa ainda o Pe. Estanislau \u2013 desempenha um papel importante no desenvolvimento espiritual da pessoa. Voc\u00ea deve aceitar a pessoa que se tornou \u2013 com seus talentos &#8211; aceitar igualmente suas fraquezas e seus limites, sua vulnerabilidade e seus medos, sua vacilante perseveran\u00e7a. Voc\u00ea deve aprender a ver tudo aquilo que n\u00e3o lhe agrada dentro de voc\u00ea, tudo aquilo que n\u00e3o gosta de ver, sua baixa autoestima. Trata-se de um processo que dura a vida inteira. Descobriremos deste modo, dia ap\u00f3s dia, coisas novas. Temos de aceitar tudo, at\u00e9 a nossa incompletude.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>\u00c9 necess\u00e1rio levar em conta tudo aquilo que em nossa vida exclu\u00edmos ou rejeitamos porque n\u00e3o correspondia \u00e0 imagem ideal que faz\u00edamos de n\u00f3s mesmos, uma imagem transfigurada e falsa. Temos de admitir que em nossa alma, al\u00e9m do amor e da amizade, moram outros sentimentos, como o \u00f3dio, a c\u00f3lera, a depress\u00e3o, o medo. Na alma n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 desejos corajosos e altru\u00edstas, mas h\u00e1 tamb\u00e9m regi\u00f5es sem Deus, que desejam ficar sem que nada as perturbe ou modifique. Se n\u00e3o olhamos com toda a verdade para as nossas emo\u00e7\u00f5es, nossos pensamentos e comportamentos, acabamos projetado-os sobre os outros. Mas olhar de frente a plena verdade de nossa vida quer dizer muito mais que lan\u00e7ar sobre ela um olhar superficial. Mas isso exige coragem, ou seja, deixar que se perca a imagem ideal de si mesmo (de si mesma).<\/p>\n<p><strong>Uma vida em sintonia com o amor<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma pessoa feliz \u2013 escreve o Pe. Estanislau \u2013 n\u00e3o \u00e9 aquela que conseguiu resolver todos os seus problemas ou ignor\u00e1-los, mas aquela que est\u00e1 consciente do pr\u00f3prio valor como pessoa, vive sua vida \u00fanica, \u00e9 ela mesma, ama os outros e permite que os outros a amem dentro de seus limites. A medida de amor que somos capazes de oferecer aos outros depende do amor que temos por n\u00f3s mesmos. Cada um de n\u00f3s \u00e9 \u00fanico. Devemos amar o nosso ser, e a estima que temos por n\u00f3s mesmos n\u00e3o deve ficar comprometida por nossos limites e nossos equ\u00edvocos. Nem o nosso atual comportamento, nem o dos outros em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s, nem tampouco os nossos sentimentos constituem o \u00edndice de nosso valor, que \u00e9 algo invari\u00e1vel. Existem pessoas que se avaliam tomando por base a defini\u00e7\u00e3o de beleza ou os modelos propostos pelo ambiente. Esses ju\u00edzos v\u00e3o dar origem ao falso \u201ceu\u201d que encobre o verdadeiro, que nos \u00e9 dado (por Deus) de uma vez para sempre.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Cada um possui o seu pr\u00f3prio \u201ceu\u201d aut\u00eantico, a sua ess\u00eancia, a sua marca espiritual. E \u00e9 aqui que Deus est\u00e1 presente, onde os medos e os sofrimentos n\u00e3o conseguem penetrar. Quem permite ao pr\u00f3prio \u201ceu\u201d, o \u201ceu\u201d aut\u00eantico, que \u00e9 espiritual, dirigir as pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es faz de sua alma uma cidadela segura onde Deus vive e onde reina a liberdade. Essa esfera interior e invulner\u00e1vel. Uma pessoa n\u00e3o pode jamais ser privada de sua dignidade intr\u00ednseca. Mas urge descobri-la e sentir a Deus como o fundamento da exist\u00eancia, de toda a vida humana. Deus me d\u00e1 a vida, e nela me mant\u00e9m. Meu valor n\u00e3o depende do fato de ser bem sucedido num exame, nem do ju\u00edzo dos outros. Depende de ser aquilo que sou. E Deus quer que eu seja eu mesmo. Meu valor n\u00e3o vem de nenhum outro, a n\u00e3o ser de Deus mesmo.<\/p>\n<p><strong>O caminho da experi\u00eancia da f\u00e9<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 F\u00e9 n\u00e3o \u00e9 apenas a doutrina da Igreja, n\u00e3o \u00e9 apenas uma dimens\u00e3o espiritual, mas \u00e9 tamb\u00e9m a maneira caracter\u00edstica de perceber a realidade; \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o apropriada de Deus, dos outros e de mim mesmo. \u00c9 a arte de uma vida saud\u00e1vel, a arte do ju\u00edzo confiante em mim mesmo, de me tratar a mim mesmo de maneira apropriada.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>A f\u00e9 \u00e9 o caminho para a liberdade: \u00e9 a confian\u00e7a em Deus, \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o que Deus alcan\u00e7a com ternura todas as regi\u00f5es do meu ser, que a sua gra\u00e7a penetra cada cantinho da alma humana, para levar at\u00e9 a\u00ed a luz de sua vida. A f\u00e9 me possibilita compartilhar com Deus todos os meus segredos. \u00c9 a certeza de que por Cristo e em Cristo os seres humanos chegam \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na vida divina e de que toda a cria\u00e7\u00e3o se acha impregnada de Deus.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O verdadeiro amor \u2013 continua Pe. Estanislau \u2013 n\u00e3o depende s\u00f3 de estar livre de um poder exterior, do poder deste mundo e da autoridade de outra pessoa, mas tamb\u00e9m de estar livre de toda coa\u00e7\u00e3o que venha de dentro da pessoa. Alguns limites da nossa liberdade podem provir de tend\u00eancias comportamentais herdadas. Minha liberdade fica limitada quando n\u00e3o conhe\u00e7o a Deus, quando perco minha autoestima, quando crio uma falsa imagem de outras pessoas, quando sigo servilmente o papel de modelos que me foram dados pelos pais, quando me deixo dominar pelo medo da solid\u00e3o ou ainda quando o meu modo de perceber a vida e o mundo \u00e9 falso.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Acontece \u00e0s vezes \u2013 continua Pe. Estanislau \u2013 que nos educaram para alcan\u00e7armos metas inating\u00edveis. Isto acontece, por exemplo, quando n\u00e3o aceitamos que Deus nos tenha criado para <em>sermos quem somos<\/em>. Achamos que nossa ideia imagin\u00e1ria tem mais import\u00e2ncia que a vontade de Deus. N\u00e3o procuramos desenvolver o que Deus nos concedeu; n\u00e3o realizamos muitas das possibilidades concretas em nossa vida. Temos dentro de n\u00f3s uma imagem de n\u00f3s mesmos derivada ou dos nossos pais ou dos nossos professores ou, quem sabe, de nossas ambi\u00e7\u00f5es, dos nosso sonhos de sermos um her\u00f3i ou uma hero\u00edna. Pensamos ent\u00e3o que seremos capazes de fazer qualquer coisa sem o auxilio de ningu\u00e9m. Pensamos que somos capazes de moldar o mundo a nosso bel-prazer, sem levar em conta a ordem que Deus lhe deu.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>As pessoas que vivem se esticando sempre na ponta dos p\u00e9s, acabam caindo na pr\u00f3pria armadilha. Resistir a Deus significa resistir \u00e0 pr\u00f3pria vida. \u00c9 causar dano a si mesmo, a si mesma. O ego\u00edsmo investido na autorrealiza\u00e7\u00e3o afasta do amor ao pr\u00f3ximo. Essas pessoas procuram a pr\u00f3pria identidade e seu valor naquilo que possuem, porque n\u00e3o souberam encontrar valor em si mesmas, enquanto criaturas amadas por Deus.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>N\u00e3o querem admitir que est\u00e3o erradas e que podem enganar-se. Procuram assim mascarar os sinais dos seus equ\u00edvocos. Fazem um imenso esfor\u00e7o at\u00e9 chegarem a uma conclus\u00e3o lament\u00e1vel, em vez de admitirem que se equivocaram em sua decis\u00e3o inicial.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O medo de um ju\u00edzo negativo a seu respeito \u00e9 mais forte que o medo de prejudicar-se: que poder\u00e1 acontecer, se os outros descobrirem como sou fraco e fal\u00edvel? E deste modo criam problemas para os outros, superestimando a pr\u00f3pria capacidade de controlar os preju\u00edzos. Falta a essas pessoas o equil\u00edbrio. Seu pensamento \u00e9 \u201ctudo ou nada\u201d: se n\u00e3o fa\u00e7o grandes coisas, a todo custo, isto quer dizer que sou vazio e insignificante, sou um zero \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p><strong>O perigo de um falso ascetismo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um ascetismo sadio se caracteriza por uma atitude positiva diante de si mesmo (de si mesma). Cabe ao verdadeiro ascetismo nos manter, ainda que alguns o considerem como nega\u00e7\u00e3o do prazer de viver e uma inibi\u00e7\u00e3o dos impulsos naturais. O conceito de afirma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da vida n\u00e3o significa sua nega\u00e7\u00e3o. Um ascetismo patol\u00f3gico, escreve Pe. Estanislau Glanz, implica uma imagem pobre de Deus, da qual podem derivar-se insensibilidade e desejos destrutivos, que s\u00e3o facetas do perfeccionismo. Os perfeccionistas querem ser como Deus. Criam para si mesmos um sistema de controles, de princ\u00edpios e mandamentos detalhados. Obedecer a esse sistema passa a ser o objetivo de sua vida.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Os perfeccionistas se privam de qualquer prazer e vivem somente \u00e0 procura do sacrif\u00edcio. Querem livrar-se de tudo aquilo que \u00e9 negativo dentro deles. N\u00e3o t\u00eam confian\u00e7a em Deus. N\u00e3o creem que de algum modo tudo tem um sentido e que Deus pode transformar positivamente tudo aquilo que parecer negativo na vida deles.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>A atitude das pessoas perfeccionistas manifesta, por outro lado, uma enorme falta de confian\u00e7a no ser humano. Pensa-se, de acordo com isto, que os indiv\u00edduos s\u00e3o bons somente quando <em>fazem<\/em> alguma coisa, como recitar o maior n\u00famero poss\u00edvel de ora\u00e7\u00f5es. Mas na realidade somente uma s\u00f3lida f\u00e9 no verdadeiro Deus oferece o g\u00eanero da confian\u00e7a de que uma pessoa necessita para levar uma vida serena e construtiva, sem temores. Aqueles que n\u00e3o t\u00eam confian\u00e7a no amor incondicional de Deus sentem muita dificuldade para lidar com a culpa, presente tamb\u00e9m nas pessoas que se esfor\u00e7am para sempre serem boas. A pessoa que n\u00e3o confia em Deus n\u00e3o compreende o significado da Cruz que Jesus levou \u00e0s costas nem porque temos de levar tamb\u00e9m a nossa cruz com Ele. Vivem de maneira teimosa de acordo com os pr\u00f3prios ideais, e sua vida se torna sempre mais r\u00edgida, at\u00e9 assumirem atitudes neur\u00f3ticas. Em suma, um ascetismo desse tipo vem a ser um processo de autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O desenvolvimento espiritual \u2013 como conclui o Pe. Estanislau Glaz \u2013 s\u00f3 pode acontecer corretamente quando a pessoa abandonar a ilus\u00e3o de ser ela o pr\u00f3prio criador de sua vida e se n\u00e3o abandonar as ilus\u00f5es relativas ao futuro. Uma dessas ilus\u00f5es consiste em acreditar que somos n\u00f3s mesmos os autores da nossa justi\u00e7a, do amor e da verdade. Na verdade, <em>somos transformados <\/em>por Cristo, <em>fomos chamados<\/em> por Cristo a uma vida nova, a um pleno desenvolvimento. Viver essa vida nova significa viver em harmonia com o nosso \u00edntimo chamado, n\u00e3o ceder \u00e0s expectativas e cobran\u00e7as que nos s\u00e3o impostas pessoalmente ou que outros nos tenham imposto. Significa deixar que <em>Deus mesmo <\/em>nos crie e nos molde. Viver sob a dire\u00e7\u00e3o e o poder do Esp\u00edrito Santo quer dizer estar livre dos grilh\u00f5es com que pretendemos provar o nosso valor. Significa viver uma vida baseada no reconhecimento de tudo aquilo que recebemos das m\u00e3os do Pai de Jesus Cristo e nosso Pai.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O objetivo da vida consiste em viver essa realidade e descobrir de novo como \u00e9 belo viver o nosso \u201ceu\u201d pessoal, como \u00e9 belo mostrar o nosso rosto verdadeiro, o rosto que Deus nos deu.<\/p>\n<p>*<em>Grande Sinal<\/em> \u2013 Revista de Espiritualidade. Ano LXI, 2007, Mar\u00e7o-Abril. Editada pelo Instituto Teol\u00f3gico Franciscano, Petr\u00f3polis, RJ. Pg. 181-187.<\/p>\n<p>_____________________________________________________________<\/p>\n<ol>\n<li>The Spiritual Development of Individuals, in: <em>Review for Religious <\/em>2004, fasc. 1.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COMO POSSO APRENDER A SER \u201cEU MESMO\u201d* (O caminho do crescimento espiritual) \u00a0 Enzo Brena Texto original em italiano em: Testimoni, 29\/02\/04, p. 9-11 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dentro de cada pessoa esconde-se um pecado de que muitas vezes ela n\u00e3o se d\u00e1 conta. \u00c9 que n\u00e3o sabe crescer no ritmo dos pr\u00f3prios anos. Assim ela corre o perigo de permanecer sempre imatura, descurando o projeto de Deus para a vida de cada mulher e cada homem. Pode ent\u00e3o viver correndo atr\u00e1s de uma autoimagem idealizada \u2013 e por isso mesmo falsa \u2013 negando o que na verdade \u00e9. \u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Quando se fala de pecado em geral, quase sempre se faz refer\u00eancia \u00e0 transgress\u00e3o de um mandamento. Mas esta \u00e9 uma forma muito reducionista de ver as coisas. \u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Os psic\u00f3logos dizem que dentro de cada um de n\u00f3s h\u00e1 outros pecados, escondidos, dos quais nem temos consci\u00eancia. Um desses pecados consiste em negligenciar o pr\u00f3prio crescimento e a meta da vida, tal como o Criador determinou e como se acha inscrito nas leis da natureza. Temos aqui o pecado de permanecer imaturo (imatura), de n\u00e3o crescer no ritmo dos nosso pr\u00f3prios anos. \u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Abordando essa quest\u00e3o, Estanislau Glaz, Jesu\u00edta, professor de Psicologia no Ignatianum de Crac\u00f3via (Pol\u00f4nia), escreve o seguinte: \u201cSe queremos crescer, temos de nos manter sempre em contato com n\u00f3s mesmos e com Deus. A falta de desenvolvimento pessoal leva a constri\u00e7\u00f5es internas, que t\u00eam como resultado fazermos mal a n\u00f3s mesmos e aos outros.\u00b9\u201d \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Muitos cl\u00e9rigos, psic\u00f3logos e te\u00f3logos costumam perguntar: O que se pode fazer para favorecer o crescimento espiritual e, por conseguinte, promover o crescimento da pr\u00f3pria personalidade? Quais seriam as condi\u00e7\u00f5es essenciais para um desenvolvimento ou crescimento apropriado? Diversos psic\u00f3logos e te\u00f3logos tentaram responder a essas perguntas, mas em geral se limitaram a p\u00f4r \u00eanfase sobre os aspectos asc\u00e9ticos e teol\u00f3gicos. Mas, hoje, a psicologia da espiritualidade faz entrar em jogo um n\u00famero maior de fatores do que o fazia anteriormente a teologia.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[26],"class_list":["post-766","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","tag-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=766"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":770,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/766\/revisions\/770"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}