{"id":772,"date":"2020-03-27T19:10:52","date_gmt":"2020-03-27T22:10:52","guid":{"rendered":"http:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/?p=772"},"modified":"2020-03-27T19:10:52","modified_gmt":"2020-03-27T22:10:52","slug":"homilia-do-papa-francisco-na-celebracao-extraordinaria-de-oracao-pela-pandemia-da-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/2020\/03\/27\/homilia-do-papa-francisco-na-celebracao-extraordinaria-de-oracao-pela-pandemia-da-covid-19\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco na celebra\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de ora\u00e7\u00e3o pela pandemia da Covid-19"},"content":{"rendered":"<p>Ao entardecer\u2026\u00bb (Mc 4, 35): assim come\u00e7a o Evangelho, que ouvimos. Desde h\u00e1 semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas pra\u00e7as, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum sil\u00eancio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo \u00e0 sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a dos disc\u00edpulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos fr\u00e1geis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necess\u00e1rios: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de m\u00fatuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos. Tal como os disc\u00edpulos que, falando a uma s\u00f3 voz, dizem angustiados \u00abvamos perecer\u00bb (cf. 4, 38), assim tamb\u00e9m n\u00f3s nos apercebemos de que n\u00e3o podemos continuar estrada cada qual por conta pr\u00f3pria, mas s\u00f3 o conseguiremos juntos.<\/p>\n<p>Rever-nos nesta narrativa, \u00e9 f\u00e1cil; dif\u00edcil \u00e9 entender o comportamento de Jesus. Enquanto os disc\u00edpulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele est\u00e1 na popa, na parte do barco que se afunda primeiro&#8230; E que faz? N\u00e3o obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (\u00e9 a \u00fanica vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as \u00e1guas, Ele volta-Se para os disc\u00edpulos em tom de censura: \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb (4, 40).<\/p>\n<p>Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de f\u00e9 dos disc\u00edpulos, que se contrap\u00f5e \u00e0 confian\u00e7a de Jesus? N\u00e3o \u00e9 que deixaram de crer N\u2019Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: \u00abMestre, n\u00e3o Te importas que pere\u00e7amos?\u00bb (4, 38) N\u00e3o Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, n\u00e3o cuide deles. Entre n\u00f3s, nas nossas fam\u00edlias, uma das coisas que mais d\u00f3i \u00e9 ouvirmos dizer: \u00abN\u00e3o te importas de mim\u00bb. \u00c9 uma frase que fere e desencadeia turbul\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 abalado tamb\u00e9m Jesus, pois n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que se importe mais de n\u00f3s do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus disc\u00edpulos desalentados.<\/p>\n<p>A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e sup\u00e9rfluas seguran\u00e7as com que constru\u00edmos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos h\u00e1bitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e d\u00e1 for\u00e7a \u00e0 nossa vida e \u00e0 nossa comunidade. A tempestade p\u00f5e a descoberto todos os prop\u00f3sitos de \u00abempacotar\u00bb e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com h\u00e1bitos aparentemente \u00absalvadores\u00bb, incapazes de fazer apelo \u00e0s nossas ra\u00edzes e evocar a mem\u00f3ria dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necess\u00e1ria para enfrentar as adversidades.<\/p>\n<p>Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estere\u00f3tipos com que mascaramos o nosso \u00abeu\u00bb sempre preocupado com a pr\u00f3pria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela aben\u00e7oada perten\u00e7a comum a que n\u00e3o nos podemos subtrair: a perten\u00e7a como irm\u00e3os. \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a<br \/>\ntodos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que n\u00f3s, avan\u00e7amos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. N\u00e3o nos detivemos perante os teus apelos, n\u00e3o despertamos face a guerras e injusti\u00e7as planet\u00e1rias, n\u00e3o ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avan\u00e7amos, destemidos, pensando que continuar\u00edamos sempre saud\u00e1veis num mundo doente. Agora n\u00f3s, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: \u00abAcorda, Senhor!\u00bb<\/p>\n<p>\u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb Senhor, lan\u00e7as-nos um apelo, um apelo \u00e0 f\u00e9. Esta n\u00e3o \u00e9 tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: \u00abConvertei-vos\u2026\u00bb. \u00abConvertei-Vos a Mim de todo o vosso cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Jl 2, 12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decis\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o tempo do teu ju\u00edzo, mas do nosso ju\u00edzo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que \u00e9 necess\u00e1rio daquilo que n\u00e3o o \u00e9. \u00c9 o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a pr\u00f3pria vida. \u00c9 a for\u00e7a operante do Esp\u00edrito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. \u00c9 a vida do Esp\u00edrito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas s\u00e3o tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que n\u00e3o aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do \u00faltimo espet\u00e1culo, mas que hoje est\u00e3o, sem d\u00favida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa hist\u00f3ria: m\u00e9dicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, for\u00e7as policiais, volunt\u00e1rios, sacerdotes, religiosas e muitos \u2013 mas muitos \u2013 outros que compreenderam que ningu\u00e9m se salva sozinho.<\/p>\n<p>Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a ora\u00e7\u00e3o sacerdotal de Jesus: \u00abQue todos sejam um s\u00f3\u00bb (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paci\u00eancia e infundem esperan\u00e7a, tendo a peito n\u00e3o semear p\u00e2nico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, m\u00e3es, av\u00f4s e av\u00f3s, professores mostram \u00e0s nossas crian\u00e7as, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando h\u00e1bitos, levantando o olhar e estimulando a ora\u00e7\u00e3o! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A ora\u00e7\u00e3o e o servi\u00e7o silencioso: s\u00e3o as nossas armas vencedoras. \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb O in\u00edcio da f\u00e9 \u00e9 reconhecer-se necessitado de salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os ven\u00e7a. Com Ele a bordo, experimentaremos \u2013 como os disc\u00edpulos \u2013 que n\u00e3o h\u00e1 naufr\u00e1gio. Porque esta \u00e9 a for\u00e7a de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas m\u00e1s. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida nunca morre.<\/p>\n<p>O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperan\u00e7a, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa f\u00e9 pascal. Temos uma \u00e2ncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperan\u00e7a: na sua cruz, fomos curados e abra\u00e7ados, para que nada e ningu\u00e9m nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limita\u00e7\u00e3o de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ou\u00e7amos mais uma vez o an\u00fancio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a refor\u00e7ar, reconhecer e incentivar a gra\u00e7a que mora em n\u00f3s. N\u00e3o apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Abra\u00e7ar a sua cruz significa encontrar a coragem de abra\u00e7ar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa \u00e2nsia de omnipot\u00eancia e possess\u00e3o, para dar espa\u00e7o \u00e0 criatividade que s\u00f3 o Esp\u00edrito \u00e9 capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espa\u00e7os onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperan\u00e7a e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abra\u00e7ar o Senhor, para abra\u00e7ar a esperan\u00e7a. Aqui est\u00e1 a for\u00e7a da f\u00e9, que liberta do medo e d\u00e1 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, deste lugar que atesta a f\u00e9 rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercess\u00e3o de Nossa Senhora, sa\u00fade do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abra\u00e7a Roma e o mundo des\u00e7a sobre v\u00f3s, como um abra\u00e7o consolador, a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus. Senhor, aben\u00e7oa o mundo, d\u00e1 sa\u00fade aos corpos e conforto aos cora\u00e7\u00f5es! Pedes-nos para n\u00e3o ter medo; a nossa f\u00e9, por\u00e9m, \u00e9 fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, n\u00e3o nos deixes \u00e0 merc\u00ea da tempestade. Continua a repetir-nos: \u00abN\u00e3o tenhais medo!\u00bb (Mt 14, 27). E n\u00f3s, juntamente com Pedro, \u00abconfiamos-Te todas as nossas preocupa\u00e7\u00f5es, porque Tu tens cuidado de n\u00f3s\u00bb (cf. 1 Ped 5, 7).<\/p>\n<p><strong>Vaticano, 27 de mar\u00e7o de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao entardecer\u2026\u00bb (Mc 4, 35): assim come\u00e7a o Evangelho, que ouvimos. Desde h\u00e1 semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas pra\u00e7as, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum sil\u00eancio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo \u00e0 sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. \u00c0 semelhan\u00e7a dos disc\u00edpulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos fr\u00e1geis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necess\u00e1rios: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de m\u00fatuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos. Tal como os disc\u00edpulos que, falando a uma s\u00f3 voz, dizem angustiados \u00abvamos perecer\u00bb (cf. 4, 38), assim tamb\u00e9m n\u00f3s nos apercebemos de que n\u00e3o podemos continuar estrada cada qual por conta pr\u00f3pria, mas s\u00f3 o conseguiremos juntos. Rever-nos nesta narrativa, \u00e9 f\u00e1cil; dif\u00edcil \u00e9 entender o comportamento de Jesus. Enquanto os disc\u00edpulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele est\u00e1 na popa, na parte do barco que se afunda primeiro&#8230; E que faz? N\u00e3o obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (\u00e9 a \u00fanica vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as \u00e1guas, Ele volta-Se para os disc\u00edpulos em tom de censura: \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb (4, 40). Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de f\u00e9 dos disc\u00edpulos, que se contrap\u00f5e \u00e0 confian\u00e7a de Jesus? N\u00e3o \u00e9 que deixaram de crer N\u2019Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: \u00abMestre, n\u00e3o Te importas que pere\u00e7amos?\u00bb (4, 38) N\u00e3o Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, n\u00e3o cuide deles. Entre n\u00f3s, nas nossas fam\u00edlias, uma das coisas que mais d\u00f3i \u00e9 ouvirmos dizer: \u00abN\u00e3o te importas de mim\u00bb. \u00c9 uma frase que fere e desencadeia turbul\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 abalado tamb\u00e9m Jesus, pois n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que se importe mais de n\u00f3s do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus disc\u00edpulos desalentados. A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e sup\u00e9rfluas seguran\u00e7as com que constru\u00edmos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos h\u00e1bitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e d\u00e1 for\u00e7a \u00e0 nossa vida e \u00e0 nossa comunidade. A tempestade p\u00f5e a descoberto todos os prop\u00f3sitos de \u00abempacotar\u00bb e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com h\u00e1bitos aparentemente \u00absalvadores\u00bb, incapazes de fazer apelo \u00e0s nossas ra\u00edzes e evocar a mem\u00f3ria dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necess\u00e1ria para enfrentar as adversidades. Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estere\u00f3tipos com que mascaramos o nosso \u00abeu\u00bb sempre preocupado com a pr\u00f3pria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela aben\u00e7oada perten\u00e7a comum a que n\u00e3o nos podemos subtrair: a perten\u00e7a como irm\u00e3os. \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que n\u00f3s, avan\u00e7amos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. N\u00e3o nos detivemos perante os teus apelos, n\u00e3o despertamos face a guerras e injusti\u00e7as planet\u00e1rias, n\u00e3o ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avan\u00e7amos, destemidos, pensando que continuar\u00edamos sempre saud\u00e1veis num mundo doente. Agora n\u00f3s, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: \u00abAcorda, Senhor!\u00bb \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb Senhor, lan\u00e7as-nos um apelo, um apelo \u00e0 f\u00e9. Esta n\u00e3o \u00e9 tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: \u00abConvertei-vos\u2026\u00bb. \u00abConvertei-Vos a Mim de todo o vosso cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Jl 2, 12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decis\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o tempo do teu ju\u00edzo, mas do nosso ju\u00edzo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que \u00e9 necess\u00e1rio daquilo que n\u00e3o o \u00e9. \u00c9 o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a pr\u00f3pria vida. \u00c9 a for\u00e7a operante do Esp\u00edrito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. \u00c9 a vida do Esp\u00edrito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas s\u00e3o tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que n\u00e3o aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do \u00faltimo espet\u00e1culo, mas que hoje est\u00e3o, sem d\u00favida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa hist\u00f3ria: m\u00e9dicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, for\u00e7as policiais, volunt\u00e1rios, sacerdotes, religiosas e muitos \u2013 mas muitos \u2013 outros que compreenderam que ningu\u00e9m se salva sozinho. Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a ora\u00e7\u00e3o sacerdotal de Jesus: \u00abQue todos sejam um s\u00f3\u00bb (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paci\u00eancia e infundem esperan\u00e7a, tendo a peito n\u00e3o semear p\u00e2nico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, m\u00e3es, av\u00f4s e av\u00f3s, professores mostram \u00e0s nossas crian\u00e7as, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando h\u00e1bitos, levantando o olhar e estimulando a ora\u00e7\u00e3o! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A ora\u00e7\u00e3o e o servi\u00e7o silencioso: s\u00e3o as nossas armas vencedoras. \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb O in\u00edcio da f\u00e9 \u00e9 reconhecer-se necessitado de salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os ven\u00e7a. Com Ele a bordo, experimentaremos \u2013 como os disc\u00edpulos \u2013 que n\u00e3o h\u00e1 naufr\u00e1gio. Porque esta \u00e9 a for\u00e7a de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas m\u00e1s. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida nunca morre. O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperan\u00e7a, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa f\u00e9 pascal. Temos uma \u00e2ncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperan\u00e7a: na sua cruz, fomos curados e abra\u00e7ados, para que nada e ningu\u00e9m nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limita\u00e7\u00e3o de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ou\u00e7amos mais uma vez o an\u00fancio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a refor\u00e7ar, reconhecer e incentivar a gra\u00e7a que mora em n\u00f3s. N\u00e3o apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperan\u00e7a. Abra\u00e7ar a sua cruz significa encontrar a coragem de abra\u00e7ar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa \u00e2nsia de omnipot\u00eancia e possess\u00e3o, para dar espa\u00e7o \u00e0 criatividade que s\u00f3 o Esp\u00edrito \u00e9 capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espa\u00e7os onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperan\u00e7a e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abra\u00e7ar o Senhor, para abra\u00e7ar a esperan\u00e7a. Aqui est\u00e1 a for\u00e7a da f\u00e9, que liberta do medo e d\u00e1 esperan\u00e7a. \u00abPor que sois t\u00e3o medrosos? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, deste lugar que atesta a f\u00e9 rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercess\u00e3o de Nossa Senhora, sa\u00fade do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abra\u00e7a Roma e o mundo des\u00e7a sobre v\u00f3s, como um abra\u00e7o consolador, a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus. Senhor, aben\u00e7oa o mundo, d\u00e1 sa\u00fade aos corpos e conforto aos cora\u00e7\u00f5es! Pedes-nos para n\u00e3o ter medo; a nossa f\u00e9, por\u00e9m, \u00e9 fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, n\u00e3o nos deixes \u00e0 merc\u00ea da tempestade. Continua a repetir-nos: \u00abN\u00e3o tenhais medo!\u00bb (Mt 14, 27). E n\u00f3s, juntamente com Pedro, \u00abconfiamos-Te todas as nossas preocupa\u00e7\u00f5es, porque Tu tens cuidado de n\u00f3s\u00bb (cf. 1 Ped 5, 7). Vaticano, 27 de mar\u00e7o de 2020<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":773,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[36,34,35],"class_list":["post-772","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-covid19","tag-homilia-do-papa","tag-quarentena"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=772"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":774,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/772\/revisions\/774"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/media\/773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}