{"id":945,"date":"2020-07-01T17:30:45","date_gmt":"2020-07-01T20:30:45","guid":{"rendered":"http:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/?p=945"},"modified":"2020-07-01T11:25:05","modified_gmt":"2020-07-01T14:25:05","slug":"catequese-a-alegria-do-evangelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/2020\/07\/01\/catequese-a-alegria-do-evangelho\/","title":{"rendered":"Catequese: A Alegria do Evangelho: Comunidade e Miss\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>A Alegria do Evangelho: Comunidade e Miss\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cAlegrai-vos sempre no Senhor\u201d Fl 4,4<\/strong><\/h3>\n<blockquote><p>Esse texto faz parte da nossa s\u00e9rie de artigos catequ\u00e9ticos que ser\u00e3o publicados todas \u00e0s quartas do m\u00eas de Julho sobre a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Evangelii Gaudium.<\/p><\/blockquote>\n<p>A primeira Exorta\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Apost\u00f3lica do Papa Francisco, intitulada <em>Evangelii Gaudium<\/em>, (A alegria do Evangelho), foi publicada no jornal L\u2019Osservatore Romano, folha di\u00e1ria da Santa S\u00e9, no dia 20\/02\/2014 (p.13), e tamb\u00e9m na\u00a0Acta Apostolicae Sedis,\u00a0peri\u00f3dico oficial da Igreja Romana, conforme o C\u00e2non 8 do\u00a0C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico. Apresenta o itiner\u00e1rio doe seu Pontificado: \u201cA alegria do Evangelho\u00a0enche os cora\u00e7\u00f5es e vidas inteiras dos que se encontram com Jesus, e os que se deixam salvar por ele s\u00e3o libertados do pecado, tristeza, vazio interior, isolamento.\u00a0Com Jesus Cristo, a alegria sempre nasce e renasce\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. O Papa se dirige aos fi\u00e9is crist\u00e3os para convocar a seguir um caminho de evangeliza\u00e7\u00e3o que tem como virtude a alegria.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a atitude do crist\u00e3o que vive segundo o Esp\u00edrito que flui do cora\u00e7\u00e3o de Cristo Ressuscitado. A miseric\u00f3rdia de Deus nos impulsiona \u00e0 gratid\u00e3o, nos elegendo sempre. Quando cedemos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de busc\u00e1-lo onde Ele n\u00e3o est\u00e1 &#8211; ofertas consumistas, tristeza individualista, comodismo, mesquinhez, consci\u00eancia isolada e busca desordenada de prazeres superficiais &#8211; devemos rezar: \u201cSenhor, deixei-me enganar, de mil maneiras que fugi do seu amor, mas estou aqui mais uma vez para renovar minha alian\u00e7a com voc\u00ea.\u00a0Eu preciso de voc\u00ea.\u00a0Redime-me novamente Senhor, aceite-me mais uma vez em seus bra\u00e7os redentores\u201d (EG 3).<\/p>\n<p>Vale a pena aprofundar o que de fato significa esta palavra: Miseric\u00f3rdia. Deus fala com Mois\u00e9s face a face e revela-Se:<\/p>\n<p>\u201cYaweh desceu na nuvem e esteve junto dele, pronunciando. Yaweh passou diante dele, e ele exclamou: Yaweh, Yaweh, <strong>Deus de ternura e piedade, lento para a c\u00f3lera, rico em gra\u00e7a e fidelidade<\/strong>&#8230;Mois\u00e9s inclinou-se at\u00e9 a terra e prostrou-se\u201d. (Ex 34, 5ss)<\/p>\n<p>A experi\u00eancia hist\u00f3rica do \u00caxodo tamb\u00e9m frutificou em obras e palavras divinas, devido a miseric\u00f3rdia de Deus, que ouve com compaix\u00e3o o clamor do povo sofredor e, assim, decide libert\u00e1-los do Egito, mesmo sabendo que poderia ser tra\u00eddo (Ex 3,7; 34).<\/p>\n<p>Tudo o que est\u00e1 em negrito pertence a um verbo hebraico feminino: <em>Hesed<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em>, que no grego Koin\u00e9, l\u00edngua do Novo Testamento, traduz-se por miseric\u00f3rdia: diz-se\u00a0<em>\u00e9l\u00e9os<\/em>. Esta palavra \u00e9 familiar atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Kyrie eleison <\/em>(Ora\u00e7\u00e3o do Of\u00edcio da Santa Missa: Ato Penitencial), que \u00e9 um apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus.\u00a0E<em>l\u00e9os<\/em>\u00a0traduz ainda outra palavra hebraica,\u00a0<em>raham\u00eem<\/em>. Esta se associa frequentemente a\u00a0<em>h\u00e9s\u00e8d<\/em>, mas est\u00e1 mais carregada de emo\u00e7\u00f5es. Literalmente, significa as entranhas; \u00e9 uma forma plural de\u00a0<em>r\u00e9h\u00e8m<\/em>, o seio materno. A miseric\u00f3rdia, ou a compaix\u00e3o, \u00e9 aqui o amor profundo: a afei\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e pelo seu filho (Isa\u00edas 49,15); a ternura de um pai pelos filhos (Salmo 103,13); um amor fraternal intenso (G\u00e9nesis 43,30).<\/p>\n<p>Sabendo disso apresentamos ainda oura tenta\u00e7\u00e3o elucidada pelo Papa: pensar que este convite \u00e9 apenas para uma classe eleita; n\u00e3o se engane, pois ningu\u00e9m \u00e9 exclu\u00eddo da alegria trazida pelo Senhor. O que acontece \u00e9 que esta Boa Not\u00edcia ainda n\u00e3o foi comunicada: \u201cEleve a sua voz com for\u00e7a, voc\u00ea que anuncia boas novas em Jerusal\u00e9m\u201d (Is 40,9).\u00a0Toda a cria\u00e7\u00e3o participa dessa alegria da salva\u00e7\u00e3o: \u201cAlegrai-vos, c\u00e9us, alegrai-vos, \u00f3 terra, clamai por alegria, \u00f3 montanhas, porque o Senhor consola seu povo e tem miseric\u00f3rdia de seus pobres\u201d (Is 49,13). O crist\u00e3o, inebriado da verdadeira alegria, encontra sentido nas pequenas coisas do cotidiano, transformando o ordin\u00e1rio em extraordin\u00e1rio, porque aprendeu a fazer tudo a partir do amor: \u201cN\u00e3o \u00e9 o quanto fazemos, mas quanto amor colocamos naquilo que fazemos. N\u00e3o \u00e9 o quanto damos, mas quanto amor colocamos em dar\u201d, diz Santa Madre Teresa de Calcut\u00e1.<\/p>\n<p>O Papa cita in\u00fameros exemplos que Sua interven\u00e7\u00e3o alegrou a realidade de seus Filhos:<\/p>\n<p>&#8220;Alegrai-vos&#8221; \u00e9 a sauda\u00e7\u00e3o do anjo a Maria (\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a01:28).\u00a0A visita de Maria a Isabel faz com que Jo\u00e3o pule de alegria no ventre de sua m\u00e3e (cf.\u00a0<em>Lc 1,<\/em>\u00a041).\u00a0Em sua can\u00e7\u00e3o, Maria proclama: &#8220;Meu esp\u00edrito se alegra em Deus, meu salvador&#8221; (\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a01,47).\u00a0Quando Jesus inicia seu minist\u00e9rio, Jo\u00e3o exclama: &#8220;Agora esta minha alegria est\u00e1 cheia&#8221; (\u00a0<em>Jo<\/em>\u00a03:29).\u00a0O pr\u00f3prio Jesus &#8220;exultou com alegria no Esp\u00edrito Santo&#8221; (\u00a0<em>Lc 10,<\/em>\u00a021).\u00a0Sua mensagem \u00e9 fonte de alegria: &#8220;Eu lhes disse estas coisas para que minha alegria esteja dentro de voc\u00ea e sua alegria seja completa&#8221; (\u00a0<em>Jo.<\/em>15,11).\u00a0Nossa alegria crist\u00e3 brota da fonte de seu cora\u00e7\u00e3o transbordante.\u00a0Ele promete aos disc\u00edpulos: &#8220;Voc\u00ea ficar\u00e1 triste, mas a sua tristeza se transformar\u00e1 em alegria&#8221; (\u00a0<em>Jo<\/em>\u00a016:20) EG 5<\/p>\n<p>Esta alegria brota da cruz gloriosa de Cristo. Ser Filho de Deus n\u00e3o \u00e9 estar blindado dos problemas, impermeabilizado dos sofrimentos, imunizado das doen\u00e7as ou ganhar privil\u00e9gios &#8211; isto jamais ser\u00e1 cristianismo. Esta alegria tem como fonte o lado aberto de Cristo, e precisamos viver desta novidade. Nisto tornamo-nos verdadeiramente humanos e, como o Salmista, \u201cn\u00e3o tememos receber not\u00edcias m\u00e1s, pois nossa f\u00e9 se mant\u00e9m firme e confia no Senhor\u201d (Sl 127,7), pois \u201co amor de Cristo nos impele\u201d (2Cor 5,14). O Papa nos convoca a sermos <em>Arautos da Esperan\u00e7a<\/em>. Em meio a tantas not\u00edcias ruins e falsas, devemos anunciar o Querigma<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Aprofundemos as palavras: Arauto e Querigma.<\/p>\n<p>A origem do uso desse termo (Querigma), vem, exatamente, do verbo grego \u201c<em>kerysso<\/em><strong><em>\u201d<\/em><\/strong>, que por sua vez, significa <u>proclamar por um mensageiro<\/u> (<em>k\u00e9ryx<\/em>) um decreto autorizado pelo soberano. \u00a0A palavra grega \u201c<em>k\u00e9ryx<\/em><strong>\u201c<\/strong>\u00a0significa justamente \u201cpregador, mensageiro\u201d. Assim, jamais se atrevia a mudar a mensagem, porque ela n\u00e3o era sua. Ele era apenas o portador, e seu dever era transmiti-la integralmente, para que ela fosse ouvida e acolhida por todos naquela regi\u00e3o. Algo semelhante aconteceu na idade m\u00e9dia com o of\u00edcio do \u201cArauto\u201d, que consistia em tornar conhecida a vontade do seu Senhor, em anunciar suas palavras, em proclamar suas senten\u00e7as. O Arauto era o oficial que fazia as publica\u00e7\u00f5es solenes, anunciava a guerra e proclamava a paz, ou seja, era o mensageiro (singular) do rei.<\/p>\n<p>O Arauto da esperan\u00e7a \u00e9 aquele que, sem medo, \u201c<em>anuncia Cristo aos homens, os adverte e os instrui em toda sabedoria, a fim de apresent\u00e1-los todos, perfeitos em Cristo\u201d<\/em>\u00a0(Col 1, 24-29), revelando a vontade de Deus aos homens. Mas esta Boa Not\u00edcia deve ser anunciada para dignificar o ser humano, com a consci\u00eancia comunit\u00e1ria. N\u00e3o pode ser como qualquer not\u00edcia importante, na qual os jornais competem entre si e disputam para conseguir o famoso furo<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> de reportagem.<\/p>\n<p>Assim, a Igreja procura tornar conhecida toda a riqueza revelada por Cristo e recebida por n\u00f3s, que<em> \u201ctrazemos em vasos de barro o tesouro do nosso minist\u00e9rio, para que se reconhe\u00e7a que um poder t\u00e3o sublime vem de Deus e n\u00e3o de n\u00f3s&#8230; Levamos sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, a fim de que se manifeste, tamb\u00e9m no nosso corpo, a vida de Jesus\u201d (2Cor 4,7.10).\u00a0 A Boa Nova <\/em>deve perscrutar um itiner\u00e1rio humano e comunit\u00e1rio, espiritual e intelectual, pastoral e mission\u00e1rio, tendo como ponto nevr\u00e1lgico a Sagrada Escritura: envolver o conhecimento da f\u00e9 (eu creio), a celebra\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da f\u00e9 na Liturgia (eu celebro) e a pr\u00e1tica da f\u00e9 que se expressa nas virtudes a na vida moral (eu vivo).<\/p>\n<p>Portanto: de que alegria estamos falando? O Papa responde:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA tenta\u00e7\u00e3o aparece frequentemente na forma de desculpas e recrimina\u00e7\u00f5es, como se houvesse in\u00fameras condi\u00e7\u00f5es para que a alegria fosse poss\u00edvel.\u00a0Isso acontece porque &#8220;a sociedade tecnol\u00f3gica conseguiu multiplicar as oportunidades de prazer, mas \u00e9 dif\u00edcil obter alegria&#8221;.\u00a0Posso dizer que as alegrias mais belas e espont\u00e2neas que vi no decorrer da minha vida s\u00e3o as de pessoas muito pobres que t\u00eam pouco a que se apegar\u201d. (EG 7)<\/p><\/blockquote>\n<p>E esta alegria que antecipa a experi\u00eancia da gl\u00f3ria \u00e9 somente poss\u00edvel gra\u00e7as ao encontro (ou reencontro) com o amor de Deus, terminando sempre em uma linda amizade, que nos enriquece e nos faz encontrarmos o nosso ser mais verdadeiro. Nesta fonte \u00e9 que se funda a comunidade e miss\u00e3o: \u201cO bem sempre tende a se comunicar.\u00a0Toda experi\u00eancia aut\u00eantica de verdade e beleza busca por si mesma sua expans\u00e3o, e toda pessoa que experimenta uma liberta\u00e7\u00e3o profunda adquire maior sensibilidade diante das necessidades dos outros.\u00a0Ao comunic\u00e1-lo, o bem cria ra\u00edzes e se desenvolve\u201d (EG 9).<\/p>\n<p>O grande bord\u00e3o do Papa no in\u00edcio de seu pontificado expressa o esp\u00edrito que a comunidade precisar sempre nutrir para a miss\u00e3o: \u201cConsequentemente, um evangelizador n\u00e3o deve ter sempre um rosto de funeral.\u00a0Recuperamos e aumentamos o fervor, a doce e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando \u00e9 necess\u00e1rio semear em l\u00e1grimas [&#8230;] \u00a0Que o mundo de nosso tempo &#8211; que agora est\u00e1 angustiado, agora com esperan\u00e7a &#8211; receba as Boas Novas n\u00e3o de tristes evangelizadores\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> (EN 75). O disc\u00edpulo mission\u00e1rio tende a ter um rosto de funeral quando n\u00e3o consegue olhar para a raz\u00e3o e conte\u00fado de sua miss\u00e3o: Jesus Cristo, vivo e Ressuscitado, ou quando cria a ilus\u00e3o de sentir-se superior \u00e0queles que nem conhecem a Deus.<\/p>\n<p>\u201cUm pequeno passo, no meio de grandes limita\u00e7\u00f5es humanas, pode ser mais agrad\u00e1vel a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar s\u00e9rias dificuldades. A todos deve chegar a consola\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo do amor salv\u00edfico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para al\u00e9m dos seus defeitos e das suas quedas\u201d (EG 44). Sem relativizar o Evangelho, \u00e9 preciso acompanhar, com miseric\u00f3rdia e paci\u00eancia, as poss\u00edveis etapas do nosso crescimento na f\u00e9, que se edifica dia ap\u00f3s dia. Para que n\u00e3o nos tornemos controladores da gra\u00e7a, transformando a Igreja numa alf\u00e2ndega ou lugar de merecedores, como que vendedores de um pr\u00eamio para perfeitos; com o cora\u00e7\u00e3o contrito e discernida consci\u00eancia, n\u00e3o renunciemos ao bem poss\u00edvel e, assim, corramos o risco de sujarmo-nos com a lama da estrada.<\/p>\n<p>Por fim, a ess\u00eancia da comunidade que est\u00e1 em constante estado de miss\u00e3o e sa\u00edda \u00e9 uma Igreja de portas abertas, como na par\u00e1bola do Pai misericordioso que espera o Filho para, quando voltar, possa entrar sem dificuldade. Mas que destino busca esta Igreja? Chegar \u00e0s periferias geogr\u00e1ficas e existenciais. O Papa insiste em privilegiar: \u201cn\u00e3o tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, \u00e0queles que muitas vezes s\u00e3o desprezados e esquecidos, \u201c\u00e0queles que n\u00e3o t\u00eam com que te retribuir\u201d (<em>Lc<\/em>\u00a014, 14). Cita o discurso que constantemente fazia aos sacerdotes e leigos em Buenos Aires: \u201c<\/p>\n<p>\u201cPrefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter sa\u00eddo pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar \u00e0s pr\u00f3prias seguran\u00e7as. N\u00e3o quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsess\u00f5es e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consci\u00eancia \u00e9 que haja tantos irm\u00e3os nossos que vivem sem a for\u00e7a, a luz e a consola\u00e7\u00e3o da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de f\u00e9 que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos d\u00e3o uma falsa prote\u00e7\u00e3o, nas normas que nos transformam em ju\u00edzes implac\u00e1veis, nos h\u00e1bitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto l\u00e1 fora h\u00e1 uma multid\u00e3o faminta e Jesus repete-nos sem cessar: \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (<em>Mc<\/em>\u00a06, 37). EG 49<\/p>\n<p>Devemos questionar nosso discipulado: \u201cCom efeito, um amor que n\u00e3o sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se n\u00e3o sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em ora\u00e7\u00e3o para Lhe pedir que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada dia, pedir a sua gra\u00e7a para que abra o nosso cora\u00e7\u00e3o frio e sacuda a nossa vida t\u00edbia e superficial. Colocados diante d\u2019Ele com o cora\u00e7\u00e3o aberto<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> como Maria, a estrela da nova evangeliza\u00e7\u00e3o que intercede por n\u00f3s e pela Igreja, mulher que caminha na f\u00e9: \u201ce a sua excepcional peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 representa um ponto de refer\u00eancia constante para a Igreja\u2019<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Que tamb\u00e9m sejamos conduzidos pelo Esp\u00edrito rumo ao caminho do servi\u00e7o e fecundidade. Encerremos com a ora\u00e7\u00e3o proposta pelo Papa ao final da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Virgem e M\u00e3e Maria<\/em><em>,<br \/>\nV\u00f3s que, movida pelo Esp\u00edrito,<br \/>\nacolhestes o Verbo da vida<br \/>\nna profundidade da vossa f\u00e9 humilde,<br \/>\ntotalmente entregue ao Eterno,<br \/>\najudai-nos a dizer o nosso \u00absim\u00bb<br \/>\nperante a urg\u00eancia, mais imperiosa do que nunca,<br \/>\nde fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>V\u00f3s, cheia da presen\u00e7a de Cristo,<br \/>\nlevastes a alegria a Jo\u00e3o o Baptista,<br \/>\nfazendo-o exultar no seio de sua m\u00e3e.<br \/>\nV\u00f3s, estremecendo de alegria,<br \/>\ncantastes as maravilhas do Senhor.<br \/>\nV\u00f3s, que permanecestes firme diante da Cruz<br \/>\ncom uma f\u00e9 inabal\u00e1vel,<br \/>\ne recebestes a jubilosa consola\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nreunistes os disc\u00edpulos \u00e0 espera do Esp\u00edrito<br \/>\npara que nascesse a Igreja evangelizadora.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Alcan\u00e7ai-nos agora um novo ardor de ressuscitados<br \/>\npara levar a todos o Evangelho da vida<br \/>\nque vence a morte.<br \/>\nDai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos<br \/>\npara que chegue a todos<br \/>\no dom da beleza que n\u00e3o se apaga.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>V\u00f3s, Virgem da escuta e da contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\nM\u00e3e do amor, esposa das n\u00fapcias eternas<br \/>\nintercedei pela Igreja, da qual sois o \u00edcone pur\u00edssimo,<br \/>\npara que ela nunca se feche nem se detenha<br \/>\nna sua paix\u00e3o por instaurar o Reino.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Estrela da nova evangeliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\najudai-nos a refulgir com o testemunho da comunh\u00e3o,<br \/>\ndo servi\u00e7o, da f\u00e9 ardente e generosa,<br \/>\nda justi\u00e7a e do amor aos pobres,<br \/>\npara que a alegria do Evangelho<br \/>\nchegue at\u00e9 aos confins da terra<br \/>\ne nenhuma periferia fique privada da sua luz.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>M\u00e3e do Evangelho vivente,<br \/>\nmanancial de alegria para os pequeninos,<br \/>\nrogai por n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p>_________________________________________<\/p>\n<h4>Pe. Ivan Soares<\/h4>\n<h4>Diretor espiritual do Secretariado de Itapetininga<\/h4>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A Carta Enc\u00edclica pode ter car\u00e1ter Social, Exortat\u00f3rio ou Disciplinar e \u00e9\u00a0dirigida aos Bispos de todo o mundo e, por meio deles, a todos os fi\u00e9is. Por meio dela o Papa exerce seu magist\u00e9rio ordin\u00e1rio. Sua origem se d\u00e1 nas cartas que os bispos enviavam entre si para assegurar a unidade entre a doutrina e a vida eclesial. J\u00e1 a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica tem car\u00e1ter menos solene (n\u00e3o menos importante) e transmite um ensinamento do papa a respeito de um assunto com o objetivo de animar os fi\u00e9is na viv\u00eancia do mesmo. Geralmente a mesma \u00e9 publicada ap\u00f3s um s\u00ednodo, trazendo o conte\u00fado tratado na reuni\u00e3o dos Bispos. Por exemplo, a <em>Evangelii Gaudium<\/em>, foi lan\u00e7ada no encerramento do ano da f\u00e9 e traz a tem\u00e1tica trabalhada no \u00faltimo s\u00ednodo dos bispos no Vaticano em 2012 \u201cA nova evangeliza\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o da f\u00e9\u201d. A Bula \u00e9 um documento selado com o timbre do papa, onde o mesmo se manifesta sobre determinado assunto. Pode ter car\u00e1ter administrativo, religioso ou pol\u00edtico. J\u00e1 o Motu Pr\u00f3prio tem geralmente a forma de Decreto, significa que se trata de mat\u00e9ria decidida exclusivamente pelo papa e n\u00e3o por um cardeal ou conselheiro.\u00a0 E por fim a Constitui\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica trata de assuntos da mais alta import\u00e2ncia, distingue-se em Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica e Constitui\u00e7\u00e3o Disciplinar, esta \u00faltima tem car\u00e1ter pastoral, j\u00e1 a primeira vem trazer a explana\u00e7\u00e3o de um dogma como a <em>Lumen Gentium<\/em> que entre outras coisas fala do culto da bem-aventurada Virgem Maria.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Evangelii Gaudium, 1.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Os significados deste termo no Antigo Testamento (AT) convergem para a tradu\u00e7\u00e3o como \u201cmiseric\u00f3rdia\u201d, mas devido \u00e0 riqueza e complexidade sem\u00e2ntica aparecem, dependendo do contexto e tradu\u00e7\u00e3o como \u201cbondade\u201d, \u201cbenignidade\u201d, \u201csolidariedade\u201d, \u201cgra\u00e7a\u201d, \u201clealdade\u201d, \u201cagir lentamente\u201d, \u201camor constante\u201d, \u201cter miseric\u00f3rdia de\u201d, \u201cser gracioso\u201d, \u201cmisericordioso\u201d, \u201cfavor\u201d, \u201csentimento fraternal e maternal\u201d, \u201cterna miseric\u00f3rdia\u201d, \u201cdevo\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cgenerosidade\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O conceito de Querigma (em grego: mensagem) no horizonte do cristianismo se identifica com o de Evangelho, Boa Not\u00edcia, an\u00fancio, mensagem de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Furo \u00e9 o jarg\u00e3o para a informa\u00e7\u00e3o publicada em um ve\u00edculo antes de todos os demais. O furo \u00e9 dado quando uma equipe de rep\u00f3rteres e editores consegue apurar uma not\u00edcia, um fato ou um dado qualquer e publica esta informa\u00e7\u00e3o sem que os ve\u00edculos concorrentes tenham acesso a ela.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Paulo VI, Exort. ap.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/paul_vi\/apost_exhortations\/documents\/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi_po.html\"><em>Evangelii nuntiandi<\/em><\/a><em>\u00a0<\/em>(8 de Dezembro de 1975), 80:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>68 (1976), 75<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> EG, 264.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_25031987_redemptoris-mater_po.html\"><em>Redemptoris Mater<\/em><\/a>\u00a0(25 de Mar\u00e7o de 1987), 6:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a079 (1987), 366.<\/p>\n<h6><span style=\"color: #999999;\">Photo by <a style=\"color: #999999;\" href=\"https:\/\/unsplash.com\/@jontyson?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Jon Tyson<\/a> on <a style=\"color: #999999;\" href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/pilgrim?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Alegria do Evangelho: Comunidade e Miss\u00e3o \u201cAlegrai-vos sempre no Senhor\u201d Fl 4,4 Esse texto faz parte da nossa s\u00e9rie de artigos catequ\u00e9ticos que ser\u00e3o publicados todas \u00e0s quartas do m\u00eas de Julho sobre a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Evangelii Gaudium. A primeira Exorta\u00e7\u00e3o[1] Apost\u00f3lica do Papa Francisco, intitulada Evangelii Gaudium, (A alegria do Evangelho), foi publicada no jornal L\u2019Osservatore Romano, folha di\u00e1ria da Santa S\u00e9, no dia 20\/02\/2014 (p.13), e tamb\u00e9m na\u00a0Acta Apostolicae Sedis,\u00a0peri\u00f3dico oficial da Igreja Romana, conforme o C\u00e2non 8 do\u00a0C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico. Apresenta o itiner\u00e1rio doe seu Pontificado: \u201cA alegria do Evangelho\u00a0enche os cora\u00e7\u00f5es e vidas inteiras dos que se encontram com Jesus, e os que se deixam salvar por ele s\u00e3o libertados do pecado, tristeza, vazio interior, isolamento.\u00a0Com Jesus Cristo, a alegria sempre nasce e renasce\u201d[2]. O Papa se dirige aos fi\u00e9is crist\u00e3os para convocar a seguir um caminho de evangeliza\u00e7\u00e3o que tem como virtude a alegria. Esta \u00e9 a atitude do crist\u00e3o que vive segundo o Esp\u00edrito que flui do cora\u00e7\u00e3o de Cristo Ressuscitado. A miseric\u00f3rdia de Deus nos impulsiona \u00e0 gratid\u00e3o, nos elegendo sempre. Quando cedemos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de busc\u00e1-lo onde Ele n\u00e3o est\u00e1 &#8211; ofertas consumistas, tristeza individualista, comodismo, mesquinhez, consci\u00eancia isolada e busca desordenada de prazeres superficiais &#8211; devemos rezar: \u201cSenhor, deixei-me enganar, de mil maneiras que fugi do seu amor, mas estou aqui mais uma vez para renovar minha alian\u00e7a com voc\u00ea.\u00a0Eu preciso de voc\u00ea.\u00a0Redime-me novamente Senhor, aceite-me mais uma vez em seus bra\u00e7os redentores\u201d (EG 3). Vale a pena aprofundar o que de fato significa esta palavra: Miseric\u00f3rdia. Deus fala com Mois\u00e9s face a face e revela-Se: \u201cYaweh desceu na nuvem e esteve junto dele, pronunciando. Yaweh passou diante dele, e ele exclamou: Yaweh, Yaweh, Deus de ternura e piedade, lento para a c\u00f3lera, rico em gra\u00e7a e fidelidade&#8230;Mois\u00e9s inclinou-se at\u00e9 a terra e prostrou-se\u201d. (Ex 34, 5ss) A experi\u00eancia hist\u00f3rica do \u00caxodo tamb\u00e9m frutificou em obras e palavras divinas, devido a miseric\u00f3rdia de Deus, que ouve com compaix\u00e3o o clamor do povo sofredor e, assim, decide libert\u00e1-los do Egito, mesmo sabendo que poderia ser tra\u00eddo (Ex 3,7; 34). Tudo o que est\u00e1 em negrito pertence a um verbo hebraico feminino: Hesed[3], que no grego Koin\u00e9, l\u00edngua do Novo Testamento, traduz-se por miseric\u00f3rdia: diz-se\u00a0\u00e9l\u00e9os. Esta palavra \u00e9 familiar atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o\u00a0Kyrie eleison (Ora\u00e7\u00e3o do Of\u00edcio da Santa Missa: Ato Penitencial), que \u00e9 um apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus.\u00a0El\u00e9os\u00a0traduz ainda outra palavra hebraica,\u00a0raham\u00eem. Esta se associa frequentemente a\u00a0h\u00e9s\u00e8d, mas est\u00e1 mais carregada de emo\u00e7\u00f5es. Literalmente, significa as entranhas; \u00e9 uma forma plural de\u00a0r\u00e9h\u00e8m, o seio materno. A miseric\u00f3rdia, ou a compaix\u00e3o, \u00e9 aqui o amor profundo: a afei\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e pelo seu filho (Isa\u00edas 49,15); a ternura de um pai pelos filhos (Salmo 103,13); um amor fraternal intenso (G\u00e9nesis 43,30). Sabendo disso apresentamos ainda oura tenta\u00e7\u00e3o elucidada pelo Papa: pensar que este convite \u00e9 apenas para uma classe eleita; n\u00e3o se engane, pois ningu\u00e9m \u00e9 exclu\u00eddo da alegria trazida pelo Senhor. O que acontece \u00e9 que esta Boa Not\u00edcia ainda n\u00e3o foi comunicada: \u201cEleve a sua voz com for\u00e7a, voc\u00ea que anuncia boas novas em Jerusal\u00e9m\u201d (Is 40,9).\u00a0Toda a cria\u00e7\u00e3o participa dessa alegria da salva\u00e7\u00e3o: \u201cAlegrai-vos, c\u00e9us, alegrai-vos, \u00f3 terra, clamai por alegria, \u00f3 montanhas, porque o Senhor consola seu povo e tem miseric\u00f3rdia de seus pobres\u201d (Is 49,13). O crist\u00e3o, inebriado da verdadeira alegria, encontra sentido nas pequenas coisas do cotidiano, transformando o ordin\u00e1rio em extraordin\u00e1rio, porque aprendeu a fazer tudo a partir do amor: \u201cN\u00e3o \u00e9 o quanto fazemos, mas quanto amor colocamos naquilo que fazemos. N\u00e3o \u00e9 o quanto damos, mas quanto amor colocamos em dar\u201d, diz Santa Madre Teresa de Calcut\u00e1. O Papa cita in\u00fameros exemplos que Sua interven\u00e7\u00e3o alegrou a realidade de seus Filhos: &#8220;Alegrai-vos&#8221; \u00e9 a sauda\u00e7\u00e3o do anjo a Maria (\u00a0Lc\u00a01:28).\u00a0A visita de Maria a Isabel faz com que Jo\u00e3o pule de alegria no ventre de sua m\u00e3e (cf.\u00a0Lc 1,\u00a041).\u00a0Em sua can\u00e7\u00e3o, Maria proclama: &#8220;Meu esp\u00edrito se alegra em Deus, meu salvador&#8221; (\u00a0Lc\u00a01,47).\u00a0Quando Jesus inicia seu minist\u00e9rio, Jo\u00e3o exclama: &#8220;Agora esta minha alegria est\u00e1 cheia&#8221; (\u00a0Jo\u00a03:29).\u00a0O pr\u00f3prio Jesus &#8220;exultou com alegria no Esp\u00edrito Santo&#8221; (\u00a0Lc 10,\u00a021).\u00a0Sua mensagem \u00e9 fonte de alegria: &#8220;Eu lhes disse estas coisas para que minha alegria esteja dentro de voc\u00ea e sua alegria seja completa&#8221; (\u00a0Jo.15,11).\u00a0Nossa alegria crist\u00e3 brota da fonte de seu cora\u00e7\u00e3o transbordante.\u00a0Ele promete aos disc\u00edpulos: &#8220;Voc\u00ea ficar\u00e1 triste, mas a sua tristeza se transformar\u00e1 em alegria&#8221; (\u00a0Jo\u00a016:20) EG 5 Esta alegria brota da cruz gloriosa de Cristo. Ser Filho de Deus n\u00e3o \u00e9 estar blindado dos problemas, impermeabilizado dos sofrimentos, imunizado das doen\u00e7as ou ganhar privil\u00e9gios &#8211; isto jamais ser\u00e1 cristianismo. Esta alegria tem como fonte o lado aberto de Cristo, e precisamos viver desta novidade. Nisto tornamo-nos verdadeiramente humanos e, como o Salmista, \u201cn\u00e3o tememos receber not\u00edcias m\u00e1s, pois nossa f\u00e9 se mant\u00e9m firme e confia no Senhor\u201d (Sl 127,7), pois \u201co amor de Cristo nos impele\u201d (2Cor 5,14). O Papa nos convoca a sermos Arautos da Esperan\u00e7a. Em meio a tantas not\u00edcias ruins e falsas, devemos anunciar o Querigma[4]. Aprofundemos as palavras: Arauto e Querigma. A origem do uso desse termo (Querigma), vem, exatamente, do verbo grego \u201ckerysso\u201d, que por sua vez, significa proclamar por um mensageiro (k\u00e9ryx) um decreto autorizado pelo soberano. \u00a0A palavra grega \u201ck\u00e9ryx\u201c\u00a0significa justamente \u201cpregador, mensageiro\u201d. Assim, jamais se atrevia a mudar a mensagem, porque ela n\u00e3o era sua. Ele era apenas o portador, e seu dever era transmiti-la integralmente, para que ela fosse ouvida e acolhida por todos naquela regi\u00e3o. Algo semelhante aconteceu na idade m\u00e9dia com o of\u00edcio do \u201cArauto\u201d, que consistia em tornar conhecida a vontade do seu Senhor, em anunciar suas palavras, em proclamar suas senten\u00e7as. O Arauto era o oficial que fazia as publica\u00e7\u00f5es solenes, anunciava a guerra e proclamava a paz, ou seja, era o mensageiro (singular) do rei. O Arauto da esperan\u00e7a \u00e9 aquele que, sem medo, \u201canuncia Cristo aos homens, os adverte e os instrui em toda sabedoria, a fim de apresent\u00e1-los todos, perfeitos em Cristo\u201d\u00a0(Col 1, 24-29), revelando a vontade de Deus aos homens. Mas esta Boa Not\u00edcia deve ser anunciada para dignificar o ser humano, com a consci\u00eancia comunit\u00e1ria. N\u00e3o pode ser como qualquer not\u00edcia importante, na qual os jornais competem entre si e disputam para conseguir o famoso furo[5] de reportagem. Assim, a Igreja procura tornar conhecida toda a riqueza revelada por Cristo e recebida por n\u00f3s, que \u201ctrazemos em vasos de barro o tesouro do nosso minist\u00e9rio, para que se reconhe\u00e7a que um poder t\u00e3o sublime vem de Deus e n\u00e3o de n\u00f3s&#8230; Levamos sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, a fim de que se manifeste, tamb\u00e9m no nosso corpo, a vida de Jesus\u201d (2Cor 4,7.10).\u00a0 A Boa Nova deve perscrutar um itiner\u00e1rio humano e comunit\u00e1rio, espiritual e intelectual, pastoral e mission\u00e1rio, tendo como ponto nevr\u00e1lgico a Sagrada Escritura: envolver o conhecimento da f\u00e9 (eu creio), a celebra\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da f\u00e9 na Liturgia (eu celebro) e a pr\u00e1tica da f\u00e9 que se expressa nas virtudes a na vida moral (eu vivo). Portanto: de que alegria estamos falando? O Papa responde: \u201cA tenta\u00e7\u00e3o aparece frequentemente na forma de desculpas e recrimina\u00e7\u00f5es, como se houvesse in\u00fameras condi\u00e7\u00f5es para que a alegria fosse poss\u00edvel.\u00a0Isso acontece porque &#8220;a sociedade tecnol\u00f3gica conseguiu multiplicar as oportunidades de prazer, mas \u00e9 dif\u00edcil obter alegria&#8221;.\u00a0Posso dizer que as alegrias mais belas e espont\u00e2neas que vi no decorrer da minha vida s\u00e3o as de pessoas muito pobres que t\u00eam pouco a que se apegar\u201d. (EG 7) E esta alegria que antecipa a experi\u00eancia da gl\u00f3ria \u00e9 somente poss\u00edvel gra\u00e7as ao encontro (ou reencontro) com o amor de Deus, terminando sempre em uma linda amizade, que nos enriquece e nos faz encontrarmos o nosso ser mais verdadeiro. Nesta fonte \u00e9 que se funda a comunidade e miss\u00e3o: \u201cO bem sempre tende a se comunicar.\u00a0Toda experi\u00eancia aut\u00eantica de verdade e beleza busca por si mesma sua expans\u00e3o, e toda pessoa que experimenta uma liberta\u00e7\u00e3o profunda adquire maior sensibilidade diante das necessidades dos outros.\u00a0Ao comunic\u00e1-lo, o bem cria ra\u00edzes e se desenvolve\u201d (EG 9). O grande bord\u00e3o do Papa no in\u00edcio de seu pontificado expressa o esp\u00edrito que a comunidade precisar sempre nutrir para a miss\u00e3o: \u201cConsequentemente, um evangelizador n\u00e3o deve ter sempre um rosto de funeral.\u00a0Recuperamos e aumentamos o fervor, a doce e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando \u00e9 necess\u00e1rio semear em l\u00e1grimas [&#8230;] \u00a0Que o mundo de nosso tempo &#8211; que agora est\u00e1 angustiado, agora com esperan\u00e7a &#8211; receba as Boas Novas n\u00e3o de tristes evangelizadores\u201d [6] (EN 75). O disc\u00edpulo mission\u00e1rio tende a ter um rosto de funeral quando n\u00e3o consegue olhar para a raz\u00e3o e conte\u00fado de sua miss\u00e3o: Jesus Cristo, vivo e Ressuscitado, ou quando cria a ilus\u00e3o de sentir-se superior \u00e0queles que nem conhecem a Deus. \u201cUm pequeno passo, no meio de grandes limita\u00e7\u00f5es humanas, pode ser mais agrad\u00e1vel a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar s\u00e9rias dificuldades. A todos deve chegar a consola\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo do amor salv\u00edfico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para al\u00e9m dos seus defeitos e das suas quedas\u201d (EG 44). Sem relativizar o Evangelho, \u00e9 preciso acompanhar, com miseric\u00f3rdia e paci\u00eancia, as poss\u00edveis etapas do nosso crescimento na f\u00e9, que se edifica dia ap\u00f3s dia. Para que n\u00e3o nos tornemos controladores da gra\u00e7a, transformando a Igreja numa alf\u00e2ndega ou lugar de merecedores, como que vendedores de um pr\u00eamio para perfeitos; com o cora\u00e7\u00e3o contrito e discernida consci\u00eancia, n\u00e3o renunciemos ao bem poss\u00edvel e, assim, corramos o risco de sujarmo-nos com a lama da estrada. Por fim, a ess\u00eancia da comunidade que est\u00e1 em constante estado de miss\u00e3o e sa\u00edda \u00e9 uma Igreja de portas abertas, como na par\u00e1bola do Pai misericordioso que espera o Filho para, quando voltar, possa entrar sem dificuldade. Mas que destino busca esta Igreja? Chegar \u00e0s periferias geogr\u00e1ficas e existenciais. O Papa insiste em privilegiar: \u201cn\u00e3o tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, \u00e0queles que muitas vezes s\u00e3o desprezados e esquecidos, \u201c\u00e0queles que n\u00e3o t\u00eam com que te retribuir\u201d (Lc\u00a014, 14). Cita o discurso que constantemente fazia aos sacerdotes e leigos em Buenos Aires: \u201c \u201cPrefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter sa\u00eddo pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar \u00e0s pr\u00f3prias seguran\u00e7as. N\u00e3o quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsess\u00f5es e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consci\u00eancia \u00e9 que haja tantos irm\u00e3os nossos que vivem sem a for\u00e7a, a luz e a consola\u00e7\u00e3o da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de f\u00e9 que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos d\u00e3o uma falsa prote\u00e7\u00e3o, nas normas que nos transformam em ju\u00edzes implac\u00e1veis, nos h\u00e1bitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto l\u00e1 fora h\u00e1 uma multid\u00e3o faminta e Jesus repete-nos sem cessar: \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (Mc\u00a06, 37). EG 49 Devemos questionar nosso discipulado: \u201cCom efeito, um amor que n\u00e3o sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se n\u00e3o sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em ora\u00e7\u00e3o para Lhe pedir que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada dia, pedir a sua gra\u00e7a para que abra o nosso cora\u00e7\u00e3o frio e sacuda a nossa vida t\u00edbia e superficial. Colocados diante d\u2019Ele com o cora\u00e7\u00e3o aberto[7] como Maria, a estrela da nova evangeliza\u00e7\u00e3o que intercede por n\u00f3s e pela Igreja, mulher que caminha na f\u00e9: \u201ce a sua excepcional peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 representa um ponto de refer\u00eancia constante para a Igreja\u2019[8]. Que tamb\u00e9m sejamos conduzidos pelo Esp\u00edrito rumo ao caminho do servi\u00e7o e fecundidade. Encerremos com a ora\u00e7\u00e3o proposta pelo Papa ao final da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica: Virgem e M\u00e3e Maria, V\u00f3s que, movida pelo Esp\u00edrito,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":948,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[39,33,45],"class_list":["post-945","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","tag-catequese","tag-diretor-espiritual","tag-evangelii-gaudium"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=945"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":949,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/945\/revisions\/949"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/media\/948"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/emaus.org.br\/itapetininga\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}